[Artigo da Folha de São Paulo, Ilustrada F-3 de Domingo, 20 de Agosto de 1989]

por José Sachetta Ramos
Editor-assistente da Ilustrada

CardinePrimeiro Ano de Canto Gregoriano e Semiologia Gregoriana – dois livros de Dom Eugène Cardine OSB em um só volume. Co-edição Attar Editorial e Palas Athena. Tradução de Eleanor Florence Dewey (Madre Maria do Redentor CSA, +2008) 349 páginas, edição esgotada atualmente.

Duas obras fundamentais para a compreensão do canto gregoriano foram traduzidas para o Português e lançadas em um único volume: “Primeiro Ano de Canto Gregoriano” e “Semiologia Gregoriana” resultam das mais avançadas pesquisas na área, realizadas por Dom Eugène Cardine OSB (1905-1988), monge beneditino de Solesmes, um centro de estudos gregorianos perto de Paris.

O livro preenche uma lacuna absoluta no mercado editorial em língua Portuguesa. As poucas publicações na área foram feitas há décadas e estão esgotadas. A sua importância é ainda maior. As conclusões das pesquisas de Dom Cardine revolucionaram a compreensão e como consequência, o ensino e a prática do cantochão — a palavra é sinônimo de Canto Gregoriano, mas os gregorianistas não a utilizam.

Dom Cardine derruba as noções rítmicas até então aceitas, negando, por exemplo, a existência de ritmos binários e ternários no gregoriano. Para ele o movimento rítmico obedece o conjunto melódico e o sentido do texto.

“Primeiro Ano do Canto Gregoriano” é um livro básico para iniciantes. Até sua publicação, em 1970, na Itália, todo material de ensino do gregoriano baseava-se no método que o restaurou no século passado. Desde o século XI o cantochão experimentou a decadência e no auge desta, no século XVIII, o repertório autêntico era quase inexistente.

Há cerca de 150 anos os beneditinos iniciaram a recuperação do gregoriano, mas é no século XX que as pesquisas paleográficas de Dom Cardine permitem uma maior aproximação das peças e do modo de cantar original.

Em “Semiologia do Canto Gregoriano” analisa-se a linguagem dos manuscritos originais dos séculos X e XI a partir do estudo e da significação melódica dos sinais neumáticos. Os “neumas” são símbolos “da notação musical na Idade Média. Dom Cardine busca a autêntica interpretação do gregoriano comparando os vários neumas empregados pelos copistas medievais.

Dom Cardine afirma que as antigas grafias determinavam a expressão interpretativa que uma peça musical exigia e desmonta um complicado jogo de significações ignoradas até então.

As obras de Dom Cardine não discutem o histórico da formação do gregoriano. Não há referência às influências da música franca na liturgia do império de Carlos Magno (742-814), que efetivamente ordenou ‘a música que acreditava ser a do tempo de Gregório I (540-604). Mas não era esse o sentido das pesquisas de Dom Cardine, circunscritas ao desenvolvimento estritamente musical. Quase todas as suas conclusões são hoje oficialmente aceitas pela Igreja. E interessam a todo estudioso de música antiga.


Obs. – Este livro – última palavra de autoridade sobre o assunto em língua Portuguesa – agora encontra-se esgotado, não reeditado, somente em Bibliotecas ou sebos.