“Sobre o prólogo da regra” «ESCUTA, FILHO…»

Nos propomos de recolhermo-nos na escuta meditativa da Santa Regra para aí buscarmos juntos os traços fundamentais do monge, em particular o traço da mansidão. Ouçamos súbito o quanto seja necessário apresentarmo-nos a esse encontro plenamente desarmados, deixando que se revelem o nosso amor próprio, as nossas durezas próprias, a nossa presunçosa resistência. Pode parecer um contra-senso, mas para sermos mansos é necessário que sejamos fortes; fortes e tenazes na luta contra a soberba, a ira, o egoísmo, a susceptibilidade e todo movimento agressivo da nossa natureza. 

Jesus Cristo é o modelo supremo. Ele era manso porque tinha em si a força do Espírito de modo tão pleno a ponto de não deixar nenhum espaço para o artifício do maligno.

A mansidão deve, portanto, caracterizar também o monge, deve ser a sua especificidade, porque Cristo é o seu ideal, como amava dizer o venerável Abade Marmion.

O monge, de fato, escolheu a via da humildade e da obediência. Se não é um homem manso, trai a sua vocação, nega a sua identidade.
Toda a Regra Beneditina propõe ao monge – nas várias situações que se apresentam a ele – a escolha da mansidão, o desapego pronto e generoso de si para dar a precedência à busca pura de Deus e ao bem alheio. A exortação da Santa Regra apóia-se sempre sobre a autoridade da Sagrada Escritura, da Palavra de Deus.

Mansos, no verdadeiro sentido evangélico, não nascemos; tornamo-nos por dom da graça. Somente quando alguém é sinceramente desejoso de receber tal dom é que demonstra de haver as disposições necessárias para tornar-se monge, para entrar na escola do serviço divino.

«Escuta…». Esse verbo tipicamente bíblico que se encontra justamente no início do Prólogo da Regra, é como uma grande porta que se escancara diante de nós para introduzir-nos na escola da mansidão.

«Escuta…»: um convite persuasivo que ressoa há séculos e milênios no coração do homem que – depois de ter dado as costas ao seu criador e Pai – caminha pelas estradas da terra sem direção. E esse convite se fez ainda mais iminente com a presença d’Aquele que, para atrair a si a criatura na qual imprimiu a sua imagem, se fez ele mesmo filho, irmão, servo do homem. Para acalmar os rebeldes, fez-se manso. Jesus Cristo, a divina mansidão encarnada, é o livro de texto, jamais superado pelo progresso da ciência humana, do qual nós devemos aprender a ciência da vida.

Ele mesmo nos declara: «Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos restaurarei. Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis repouso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve» (Mt 11, 28-30).

Estamos cansados por causa de uma caminho extenuante, sob o peso de nós mesmo, mas nos é oferecida a possibilidade de beber de uma fonte fresca e de retomar o caminho com as energias restauradas, somos reconduzidos ao nosso «princípio» e colocados diante do claro horizonte do nosso «fim».

O Prólogo pode realmente ser entendido também como um discurso dirigido a neófitos, a cristãos recém saídos da fonte batismal, a discípulos a quem acabaram de abrir os ouvidos com o rito do «effetà». O novo filho de Deus, nascido da água e do Espírito, tornou-se capaz de escutar a voz do seu Pai, tornou-se capaz de conhecer o seu amor, por isso é inscrito na escola dos discentes, daqueles que aprendem.

«Escuta, filho…». Não se trata de um escolar qualquer, mas de um filho, que deve escutar como filho para aprender a viver como verdadeiro filho. Deve inclinar o ouvido do coração, abrir-se ao amor do Pai, sem timidez, sem reservas. Como fazer? Eis o livro, eis a bela figura que mostra ao vivo como devemos nos comportar: Jesus Cristo, o Filho Unigênito, o Filho predileto porque em tudo concorde com o Pai, em tudo obediente por amor.

Ele é o caminho e o guia: seguindo-o, ninguém mais poderá perder-se. Mas esse caminho que Ele é e que Ele nos propõe chama-se obediência, chama-se cruz: obediência até a cruz. O seu jugo não aparece, pois, a princípio tão suave e leve como Ele o definiu! A suavidade não é comumente uma virtude dos principiantes, mas dos maduros. O que é, de fato, que torna ainda tão cansativo o nosso caminho no seguimento de Cristo se não aquele peso de nós mesmos, do nosso eu ainda adolescente, imaturo e caprichoso, que se inquieta pela vontade de emancipar-se e de realizar as próprias experiências? Na realidade, pesa-nos sempre sobre nós a «sela» de Satanás, aquele velho patrão que não quer conceder-nos à mão de Cristo, e que além de arrastar-nos para as suas vias tortuosas, se empenha dia e noite por fazer resplandecer aos nossos olhos os seus artifícios de prestígio.

Nós temos medo de perder a nossa autonomia, a nossa personalidade, de não nos realizarmos plenamente se, ao invés de pensarmos com a nossa cabeça, de afirmarmos as nossas idéias e as nossas preferências, escutarmos um outro, do qual acolhemos as idéias e seguimos os conselhos.

Para tornarmo-nos verdadeiramente livres – como devem ser os filhos de Deus – não nos resta, pois, outro caminho senão aquele da obediência; via aberta por Jesus Cristo mesmo, com seus braços estendidos na cruz.
Assim São Bento apresenta a vida monástica: um caminho de conversão incessante, progressivo; um caminho de humildade e de docilidade total à Palavra que todos os dias de novo desperta o discípulo e chama-o ao trabalho, à fadiga das duras batalhas pela fé.

Não há lugar, portanto, para os projetos e seguranças humanas; não há lugar para afirmações de ilusórias prerrogativas próprias. Quando o discípulo predispõe o seu corpo e o seu coração, todo o seu ser para «militar sob a santa obediência», deve rezar para que o Senhor disponha em ajudá-lo com a sua graça; e quando obteve alguma vitória não se ensoberbece pela sua conquista, mas julga sinceramente dever glorificar a Deus pelo bem que nele operou. Do mesmo modo, portanto, não deve deixar-se abater pelo desencorajamento e passar à inércia cedendo à tentação de abandonar tudo quando se encontra diante de dificuldades que parecem insuperáveis e a ajuda do Senhor parece não vir. Também nesse caso, ou melhor, próprio nesse caso a mansidão deve constituir a sua força, a docilidade e a paciência devem constituir o seu penhor de fidelidade a toda prova. A estreita e escura passagem, do qual o Senhor mesmo nos fala, terá seguramente o seu desfecho na via grande e luminosa do amor; de fato:

«progredindo no caminho de conversão e de fé, percorremos com coração dilatado e com inefável doçura de amor o caminho dos divinos mandamentos».
Em todo o itinerário da vida monástica é, pois, contemplado e proposto o mistério da mansidão de Cristo, o Filho obediente até a morte de cruz e, por isso, glorificado pelo Pai.

Sendo um cristão escolhido para formar uma «militia Christi» de vanguarda, para estar entre os seguidores mais fiéis e apaixonados de Jesus Cristo, o monge deve mais do que os outros revestir-se dos seus sentimentos de humildade, de mansidão, de compaixão, para saber estar com Ele, perseverando com Ele nas suas provas (cf. Lc 22, 28).

Normalmente, a nós não falta esse desejo; falta, porém, a capacidade de reconhecer nas situações concretas da nossa existência a realidade da cruz que deve ser abraçada, momento de graça do qual aproveitar. Aceitaríamos a provação de Deus, mas não dos homens. Imaginamos que saberíamos calar e que seríamos mansos diante do Senhor, se fosse Ele mesmo ali presente, a dar-nos uma ordem ou a repreender-nos, mas não é a mesma coisa encontramo-nos diante de homens! Assim, não nos damos conta nem sequer que Jesus sofreu de nós a humilhação – de nós, homens e pecadores, Ele Deus e inocente! – e que Ele foi crucificado por nós, por nós homens, e não diretamente da mão do Pai Eterno. A sua obediência atuou na situação humana na qual Ele, encarnando-se, se encontrava. Muito facilmente nós separamos o desígnio de Deus da história humana que misteriosamente vai se cumprindo. As nossas resistências e rebeldias, as nossas contestações e insubordinações, que acreditamos legítima defesa dos sagrados direitos da nossa pessoa, revelam não raramente no nosso comportamento uma persistente mentalidade secular, uma concepção ainda muito pouco cristã da vida. O famoso dito da antiga sabedoria pagã: Homo homini lupus, o homem é o lobo para o seu semelhante, é, infelizmente, uma realidade constatável não somente no nível de sociedade civil e política, mas tantas vezes, também religiosa. Sinal esse que não tudo quanto se declara religioso possui uma autêntica relação com Deus.

É certo que onde não existe amor e mansidão de ânimo, Cristo não reina ainda.

São Bento constitui o cenóbio, o lugar da vida comum, justamente sobre a lei fundamental do amor, que exige humildade, mansidão, serviço recíproco, obediência. Esse é o campo de treinamento no qual os verdadeiros discípulos,
«não nos separando jamais do magistério de Deus, antes, perseverando no seu ensinamento, estáveis no mosteiro até a morte, participaremos com o nosso humilde padecer nos sofrimentos de Cristo, para merecermos também a sua glória no seu Reino.»

Se, pois, ao convite do Senhor, que procura sempre na multidão quem esteja disposto a se colocar ao seu serviço, nós queremos responder ainda hoje: Ecce, ego: eis-me aqui, não duvidemos de poder mudar, na sua escola, a nossa natureza de lobo em natureza de cordeiro. Aquele que por nós fez-se «como cordeiro manso conduzido ao matadouro», Aquele que por nós se fez nada, tomando a condição de escravo (cf. Fil. 2), se fará presente diante de nós, em todo momento de provação, para nos dizer: Ecce adsum! Eis-me aqui – eu, o teu Deus – para ser o teu servidor, para te salvar tomando sobre mim a condenação devida à tua recusa em servir.

Alcançando-nos nas esquálidas regiões da nossa desobediência, possa o Senhor cada dia reconduzir-nos, contritos e mansos, à sua tenda, sempre preparados para o seu sinal «como os olhos dos servos nas mãos do seu senhor», segundo a bela expressão do Salmo 122. Então, a beatitude dos mansos tornar-se-á o canto da nossa vida, a força da nossa fraqueza, a doçura e a alegria do nosso pequeno sofrer no seu grande sofrimento pela salvação do mundo.

Do livro: «Mansuetudine: volto del monaco», da Abadessa Anna Maria Cànopi OSB, Ed. La Scala, Noci 2007, pp. 15-21.
Tradução de D. Adriano Bellini OSB

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