RB 68 – Nos mansos, o amor opera o impossível

Esse capítulo – que é coligado aos capítulos quinto e sétimo – explicita bem a mansidão pedida ao monge para viver o mistério da obediência em íntima união com o Cristo, Cordeiro manso que se deixa conduzir ao matadouro sem abrir a boca (cf. Is 53, 7; Jr 11, 19). Trata-se da obediência considerada não somente difícil, mas até mesmo impossível.

Questionemos-nos com simplicidade quais são as coisas que para nós parecem impossíveis; diante das quais nos sentimos incapazes, impotentes. Talvez, antes de tudo, devamos admitir que para nós seja impossível calar. Calar verdadeiramente, ficarmos em estado de silêncio. Fazer calar todo o nosso ser para que se possa criar o espaço de escuta. Quando calamos somente com a boca, mas temos o ânimo em tumulto, somos como um vulcão aparentemente inativo que prepara uma violenta erupção.

A experiência ensina que o melhor “silenciador” é o espírito de mansidão, de humildade, acompanhado pelo espírito de adoração, de total adesão à vontade de Deus. Diante dos desígnios imperscrutáveis do Senhor se prostra e se adora simplesmente o mistério; se faz silêncio diante daquele que é Deus e que pode perguntar a nós tudo aquilo que quiser. Poderia até mesmo não querer a minha existência. Quem sou eu para lhe dizer: Não faça assim?

Recordemos sempre a belíssima oração de Jó e façamos de modo que seja também nossa: “Eis que sou miserável: que posso responder a ti? Coloco a mão sobre a boca. Falei uma vez, mas não replicarei, falei duas vezes, mas não continuarei” (Jó 40, 4-5).

São Bento não apresenta a vida monástica em nenhum ponto da Regra como fácil e suave. Ele afirma que, sendo um seguimento do Cristo obediente até a morte, é uma vida de sacrifício. Nela, a nossa natureza encontra dificuldades que, algumas vezes, parecem insuportáveis. Mas já no Prólogo, dirigindo-se ao discípulo que está para empreender a vida monástica, São Bento diz: Saibas que tudo quanto a ti parecerá impossível, será sempre possível a Deus. Não tu, mas ele mesmo levará a cumprimento tudo aquilo que em ti e contigo terá começado. Somente partindo desse pressuposto é que se chega a aceitar até mesmo uma obediência que parece impossível:

“Se a um monge é dada uma obediência difícil ou mesmo impossível, ele acolha com plena obediência e mansidão a ordem do superior”.

O texto latino diz: omni mansuetudine, ou seja, com absoluta, com plena mansidão, com uma rendição total de si, porque se houver toda mansidão, haverá também toda adesão do coração e da mente.

Acolher a ordem dada “com plena obediência e mansidão” significa partir com espírito pronto para cumprir a obediência, sem colocar-se a salvo, sem hesitar, sem murmurar, sem resistir (cf. RB 5).

“Se, depois, vê que o peso do ônus excede absolutamente a medida de suas forças, manifeste ao superior os motivos pelos quais é impossível obedecer, mas faça-o com toda a humildade e em tempo oportuno, sem arrogância, sem obstinação, nem com espírito de contradição”.

Somente quando o monge já começou a obedecer – não antes -, e que percebe que o peso supera realmente as suas forças, o monge pode, então, expressar a sua dificuldade. Notemos, porém, que essa não deve ser somente uma repugnância à fadiga ou uma intolerância da coisa em si. Em tal caso, a dificuldade não consistiria em encontrar-se diante de uma obediência “impossível”, mas no consentir à preguiça até uma recusa psicológica.

Se, portanto, o monge acha realmente o peso absolutamente além de suas forças, com paciência, esperando o momento oportuno – e não imediatamente, sob impulso emotivo – apresente as causas de sua incapacidade em obedecer. Nunca com atitude de soberba e de protesto, nunca com o ânimo já decidido a “combater” com o abade ou com o superior resistindo até o sangue às diretivas deles.

Pode existir até alguém que – não sendo de temperamento impulsivo, mas astuto e tenaz – consegue escapar da obediência recebida, apresentando suas motivações com atitude correta e com deferência, com um discurso tão persuasivo e uma lógica tão sutil que consegue dobrar os superiores à própria vontade. Atingido o escopo, em tal caso se continua a viver no compromisso: aparentemente bons monges, mas na realidade, piores que todos os outros, porque parecem mansos, mas são os mais violentos.

Além disso, o que dizer daqueles que, sempre movidos pelo espírito de contradição, depois de terem recusado na prática a obediência, contradizem o abade pela decisão que tomou, qualquer que seja a nova proposta ou motivação que lhes apresente? “Contradizer” significa dizer exatamente o contrário; nesse caso, a contestação é uma tática de defesa para não tomar nunca nem deixar-se impor o jugo de Cristo seriamente.

É evidente que essas são atitudes totalmente estranhas àqueles que abraçam a obediência por amor de Cristo. O desobediente, ao invés de abraçar a cruz, de tal maneira se distancia e se defende dela construindo barreiras em cima de barreiras. Todo o mal nasce da soberba. O monge que se comporta assim não demonstra ter se colocado verdadeiramente na escola de Jesus, manso e humilde de coração. Ao contrário, é ainda discípulo do outro, daquele anjo rebelde que, desde o início, se opôs a Deus e levou o homem à ruína fazendo-o seu cúmplice.

O monge que expõe com mansidão as verdadeiras dificuldades, não convicções subjetivas e pretextos, está já disposto a aceitar o caso de uma confirmação da obediência, certo de que, de qualquer modo, a ajuda para cumpri-la não lhe faltará:

“E se, depois da sua abertura de ânimo, o superior não muda as disposições dadas, o monge creia que isso lhe é conveniente e, por amor, contando unicamente com o auxílio de Deus, obedeça”.

Notamos bem a expressão “creia que isso lhe convém”; deve crer nisso, não sentir ou tocá-lo com a mão. Então, ainda que lhe pareça que o peso daquela obediência coloque em perigo a sua tranqüilidade e a sua salvação, não hesita em assumi-la. E assume “por amor”, animado pela caridade, não obrigado, não porque não pode esquivar-se. Por amor obedeça. É tudo, e é belíssimo! Animado pela caridade, o monge acredita naquilo que não compreende, e confia no abade; aceita o julgamento de quem o guia com aquele espírito filial que faz com que ele acolha no abade o amor do Pai celeste, o qual sabe de que coisa sua criatura tem realmente necessidade.

Sem nos cansar, insistamos ainda sobre essa afirmação comprovada dos fatos: se não temos espírito filial e não acreditamos no amor do Pai celeste, não conseguiremos aceitar jamais a obediência difícil, a obediência sacrifical mediante a qual Jesus Cristo tornou-se princípio de salvação para todos aqueles que obedecem (cf. Heb 5, 7-9).

É necessário, portanto, enfrentar a realidade: ou rejeitamos logo a chamada e não nos colocamos na condição de ter um abade a quem obedecer como ao próprio Deus; ou então, nos entregamos sem restrições mentais e procuramos ser coerentes para não continuarmos a ser árbitros de nós mesmos.

O jugo da obediência “por amor” não oprime ninguém; pelo contrário, o amor que temos em direção a Deus sente a necessidade de manifestar-se na caridade em relação a quem o representa de modo particular, o abade, e também em relação a todos os Irmãos, a começar do mais próximo até aquele mais distante. O monge deve saber que se não obedece, se não cumpre esse sacrifício espiritual, ele diminui o bem dos Irmãos, os priva de força e de graça atrapalhando-os no caminho da salvação.

Se o monge crê e ama verdadeiramente, e obedece “contando unicamente com o auxílio de Deus”, é certo que conseguirá malgrado a sua incapacidade e fraqueza. De fato, é bom que a natureza frágil seja colocada em condição de encontrar-se em dificuldade; é bom encontrar-se de vez em quando diante do impossível, porque então a nossa fé é provada, passa pelo cadinho e sai purificada e fortificada.

O caminho da obediência impossível é a experiência mais constante e mais viva na história da salvação. O Senhor colocava tantas vezes o povo de Israel no impossível para intervir depois, ele mesmo, com a sua potência de amor. O Senhor Jesus – como atestam o Evangelho – se fez presente em situações impossíveis e operou milagres para confirmar na fé os seus discípulos e para chamar à fé outros filhos de Abraão.

O Senhor nos dá a graça de podermos experimentar tudo isso. Não nos amaria como Pai se não nos colocasse em um caminho de retorno cheio de obstáculos exatamente para manifestar-se a nós e para carregar-nos sobre os seus ombros, para crescer a nossa fé, o nosso amor filial, o nosso rendimento de graças.

“Não é o caminho que é impossível – afirmava Kierkegaard – mas é exatamente o impossível a ser o nosso caminho”. Encontramo-nos sempre diante do mistério da cruz de Cristo, “escândalo para os judeus, insensatez para os pagãos, mas para aqueles que são chamados… potência de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1, 23-24).

Tendo confiado no auxílio de Deus que se manifestava justamente na sua impotência, Nossa Senhora pôde cantar o seu Magnificat diante do impossível cumprido pelo poder de Deus. Assim, Abraão, assim todos os santos que tiveram fé em Deus.

Também a nós é dada a oportunidade de pertencer à multidão desses eleitos, a essa estirpe de fortes porque mansos; mas se fugimos sempre do impossível e nos mantemos em um nível puramente humano e natural, não faremos nunca uma tal experiência de graça que nos faz amadurecer na fé e no amor.

São Bento não diz ao discípulo: Obedeça porque conseguirás com as tuas forças, mas: Deixes que o Senhor cumpra e não duvides da sua capacidade; não digas: eu não consigo, e nem vós conseguireis!… Seria como não reconhecer que ele é Deus e não um homem. Na obstinação em declarar que uma coisa seja impossível, revela-se em nós uma raiz de incredulidade e de arrogância. Devemos, ao contrário, revestir-nos de mansidão, ou seja, de Cristo. São Paulo diz: “Revesti-vos de Cristo”, isto é, “dos sentimentos de humildade, de mansidão, de benevolência” (cf. Fil. 2).

Rezemos ao Senhor para que faça fixar bem esse hábito no nosso ser de maneira que não possamos mais perdê-lo, que não possamos mais despir-nos dos seus pensamentos e dos seus sentimentos. Então, em cada situação ainda que difícil ou impossível, saberemos dar espaço aos interventos prodigiosos da sua graça.

Tantas obediências nós as sentimos impossíveis porque temos sempre pouca fé e pouco amor; ao contrário, a Deus tudo é possível porque ama infinitamente. E é justamente essa onipotência do amor o dom imenso que ele nos quer comunicar infundindo o seu Espírito no nosso coração.

Oremos uns pelos outros, afim que sejamos, antes de tudo, capazes de receber o dom do Espírito Santo para nos tornarmos o lugar no qual se manifesta a potência criativa de Deus. Do nada, do impossível do nosso nada, o Eterno Amor tire sempre novas maravilhas.

Do livro “Mansuetudine volto del monaco”, da Abadessa Anna Maria Cànopi OSB, Ed. La Scala, Noci 2007, pp. 537-543. Tradução de D. Adriano Bellini OSB

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