A Mansidão, Força Dos Cenobitas

Podemos nos perguntar por que São Bento quis apresentar as várias espécies de monges conhecidas no seu tempo, antes de colocar-se a escrever a Regra para os cenobitas. Com certeza pretendia excluir toda possibilidade de equívoco, separando claramente a autenticidade de um empenho de vida evangélica da ambigüidade de comportamentos que constituíam uma aberrante instrumentalização do sagrado.

A descrição do gênero de vida dos sarabaítas e dos giróvagos é um quadro com colorações verdadeiramente grotescas e cria um contrasto muito eficaz com a clara e simples enunciação dos primeiros dois gêneros: os cenobitas e os anacoretas.

Pouquíssimas palavras definem em uma só frase o primeiro gênero,

«aquele dos cenobitas, ou seja, daqueles que vivem em um mosteiro e obedecem a uma regra e a um abade».

Notemos: são chamados cenobitas porque vivem juntos; vivem estáveis em um mosteiro; e o fato de estarem juntos em um lugar comporta que sejam concordes na obediência a uma Regra e a um abade, formando assim uma koinonia, uma comunhão, uma verdadeira ecclesìa fundada sob Cristo, Filho e servo obediente ao Pai, solidário com os irmãos.

Conclui-se que os cenobitas são aqueles que espontaneamente se submeteram ao jugo de Cristo, para viver no espírito das bem-aventuranças. “Fortíssima estirpe” São Bento os chama com admiração, porque verdadeira estirpe dos mansos, daqueles que querem fazer justa violência a si mesmos para vencer o mal e realizar o bem, para renunciar à cumplicidade com o poder das trevas e vestir as armas pacíficas dos filhos da luz.

Também a apresentação dos anacoretas é feita com expressões esculpidas, que pintam quase ao vivo a robusta têmpera de tais homens. Esses são praticamente considerados um fruto maduro da vida cenobítica. De fato, somente depois de serem bem exercitados na vida comum com o auxílio dos irmãos (extructi fraterna ex acie) alguns poderão ousar lutar contra o malígno sozinhos, no deserto. Os mais espertos em humildade e obediência, os mais consolidados na mansidão serão os mais valorosos campeões da luta. Mas o segredo da sua força se deve justamente procurar naquele adestramento – extructi fraterna ex acie – que precedeu o seu retiro na solidão.

E eis a outra face da medalha, o contraposto da autêntica busca de Deus.
“Detestáveis sob qualquer ponto de vista” é o gênero dos “sarabaítas”. Homem “não temperados por alguma regra”, não provados nem purificados, mas “moles como o chumbo” fundido. Como vivem? Segundo o seu prazer, realizando as suas vontades, as suas baixas inclinações, andando aqui e lá, sempre instáveis para não deverem submeter-se a ninguém. Homens intolerantes de qualquer demora, tiranizados por causa das suas vontades. Do mesmo modo, talvez ainda pior, se comportam os giróvagos, parasitas que desfrutam a hospitalidade e não se fazem úteis a ninguém, de tal modo instáveis que podem ser comparados a nuvens sem água levadas pelo vento das suas paixões (cf. 2 Pd 2, 17).

Para temperar os caracteres, para corrigir os desvios e formar consciências retas e maduras não existe outra via senão aquela que Cristo propõe. Adquire verdadeira liberdade e condivide o senhorio de Cristo sobre todas as coisas quem aceita a disciplina da obediência que faz os mansos, ou seja, os verdadeiros fortes no reino dos céus, quem se deixa recrutar nas fileiras dos mansos, seguidores do único e verdadeiro Rei que vence quando perde.

Esclarecido isso, São Bento não quer perder nem mais um instante a considerar as caricaturas do seguimento de Cristo. Com vigor e entusiasmo passa sem dúvida a cuidar dos seus caros cenobitas, dos quais parece já contemplar as fileiras numerosas e sólidas dentro dos saudáveis muros dos mosteiros. Não homens inertes fugidos do mundo, mas valorosos combatentes da fé para defender o mundo das virulentas agressões do mal.

A.M. CÀNOPI, Mansuetudine: volto del Monaco, Scala, Noci 2007, 23-25

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