Os Padres do Deserto – ANTÃO

Os Padres do Deserto na Coleção Sistemática dos Apoftegmas

Introdução. O monaquismo no Oriente Cristão.

Fenômeno monástico comum e contemporâneo em diversos lugares do mundo cristão. Freqüentemente, fala-se do monaquismo egípcio como o movimento que deu início ao fenômeno monástico. É verdade que o Egito constitui um dos lugares tanto primários como fundamentais para o nascimento e o desenvolvimento do monaquismo. Mas este fenômeno não nasce primeiro e somente no Egito, mas em toda a bacia cristã do Mediterrâneo. É a Vita Antonii de Atanásio que transformará o Egito em um primus do monaquismo, mas insisto, um primus inter pares (em importância e cronologicamente). De fato, muitas vezes, fazendo uma história do monaquismo cristão em geral, tende-se a afirmar que ele teria nascido no Egito, em torno da grande figura de Santo Antão – e de certo modo também em torno da de Pacômio -, e conseqüentemente graças à difusão da Vita Antonii feita por Santo Atanásio e traduzida em diversas línguas já no próprio século IV, o fenômeno monástico teria se difundido para o cristianismo mediterrâneo Oriental e Ocidental. Sem nada tirar da importância e da influência ocorrida por causa da Vida de Santo Antão, gostaria logo de apresentar a minha convicção de que o fenômeno monástico – ou se quereis, o nascimento e o crescimento do fenômeno ascético monástico cristão – vai além do Egito e de Antão, e começa antes de Antão e contemporaneamente, não somente no Egito, mas na Mesopotâmia, Síria, Palestina. Portanto, não se deveria falar tanto de monaquismo siríaco e copta em uma relação de filiação com o Egito monástico do século IV, mas de uma relação de fraternidade. De qualquer modo, é verdade que o Egito permanecerá um ponto de referência para os outros monaquismos cristãos. Freqüentemente, as biografias dos monges siríacos falam de uma “viagem-peregrinação” ao Egito para ver… para encontrar…

Relação estreita entre monaquismo e Igreja local; entre bispos e monges. Com essa frase gostaria de indicar a relação estreita (não sempre pacífica, mas estreita) que desde o início liga o fenômeno monástico à Igreja local. Antão empenha-se na luta anti-ariana indo duas vezes a Alexandria para apoiar Atanásio. Efrém de Nisibi, que não foi monge, apresenta os bispos de Nísibi a quem assiste como diácono, com as virtudes que serão requeridas aos ascetas/monges. Severo de Antioquia, nas suas Homilías Catedrais, apresenta-se como um bispo zeloso da vida e das atividades dos monges. Empenho dos monges palestinos nas controvérsias cristológicas dos séculos V-VI. Cito ainda o caso dos monges que se tornam bispos, e sobretudo os exemplos dos bispos não-monges em precedência ao episcopado – que escrevem ou dão regras para os monges: Atanásio de Alexandria no âmbito egípcio, e Filoxeno de Mabbug e Severo de Antioquia no âmbito siríaco.

Por que a escolha de Antão e os Apoftegmas, ou seja, os Padres do Deserto? Um outro aspecto que encontramos lendo os testos monásticos antigos, os testos dos Pais do deserto é o tema da paternidade espiritual. No cristianismo oriental contemporâneo, encontramos uma clara linha de continuidade com o cristianismo das origens, com a Igreja dos Pais. Um dos fatores que creio seja decisivo para essa continuidade é a existência de figuras de pais espirituais nos quais, de algum modo, perpetua-se o carisma dos Pais do deserto . É através deles que se perpetua a tradição, que não é sinônimo de hábitos adquiridos, mas a transmissão de uma graça e de uma experiência espiritual que vivificam em cada época a vida dos cristãos

A paternidade espiritual, como indicada o próprio nome, é um carisma, um dom dado pelo Espírito Santo. Não se trata de uma instituição, mas de um carisma não vinculado a um ofício, nem ao sexo nem à idade daquele que o recebeu.

Relendo os textos monásticos do primeiro monaquismo, percebemos como o tema da paternidade espiritual está ligado a esse desde o início, e, além do mais, como ainda hoje é um ponto de extrema importância não somente para os monges, mas também para todos os cristãos de hoje. A paternidade espiritual é uma pedra de comparação que nos permite perceber e traçar com maior clareza – o quanto hoje isso seja possível-, o limite entre mística autêntica e misticismo, entre gnose verdadeira e falso misticismo.

O pai espiritual é aquele capaz de gerar filhos para o conhecimento e para o amor de Deus. Essa poderia ser uma primeira definição – ou uma primeira aproximação de definição – daquilo que é o pai espiritual no Oriente. Uma secunda parte dessa definição que a complementa, poderia ser: a paternidade espiritual “nasce” da filiação espiritual; quando há filhos espirituais – filhos que procuram verdadeiramente tornar-se filhos -, é então que se gera, que nasce a paternidade espiritual.

A paternidade espiritual no Oriente, ligada certamente ao fenômeno monástico, não vem mais contraposta ao papel hierárquico do ou dos pastores na comunidade monástica, na Igreja. O pai do mosteiro, igúmeno, superior, pode ser ou não o pai espiritual dos monges; o papel hierárquico não está sempre ligado àquele espiritual, mas também não está necessariamente desvinculado.

Um outro aspecto que será claro desde o início no tema da paternidade espiritual, é o fato de que ninguém é capaz de tornar-se pai espiritual de um outro, se antes ele mesmo não foi filho espiritual. Santo Antão o Grande, tido como pai dos monges e primícia dos anacoretas, antes de retirar-se no deserto, procura conselho de um velho asceta, como lembra Santo Atanásio na Vita Antonii 3,3, o qual, por sua vez, era ligado ao movimento ascético que está na base do primeiro monaquismo.

O pai espiritual representa para o discípulo, quer dizer, para aquele que se confiou a um pai, a paternidade de Deus que gera e ajuda a crescer na vida espiritual, especialmente por meio do conselho e da oração/intercessão. O pai espiritual torna-se tal porque também ele fez a experiência da filiação espiritual e aprendeu daquele que foi o seu pai. Nos textos dos monges do Deserto de Gaza no VI século, Barsanufio, João e Doroteo de Gaza, encontramos alguns aspectos importantes. As palavras do pai espiritual são recebidas pelo discípulo como palavras de Deus: essas coisas ditas por mim, ou antes, ditas por Deus, da minha parte, ou antes, da parte de Deus, Deus através de mim,… os guia. Da parte do pai espiritual, dos Anciãos, deve haver sempre uma profunda humildade, a consciência da própria fraqueza: Não sejas insensível à potência que cada dia se derrama sobre ti da parte de Deus através da minha miséria. De um lado, vemos a percepção clara e segura do carisma que é próprio deles, carisma que é uma participação na potência de Deus; de outro lado, a percepção, também essa clara e segura, da própria fraqueza e dos próprios pecados; esse equilíbrio é, sem dúvida, um dom do Espírito, caso contrário cairia ou no orgulho ou então na hipocrisia. Nessas cartas dos monges de Gaza, a relação espiritual pai-filho é uma relação feita através da sabedoria do Espírito, que orienta o crescimento do filho, e a caridade que leva o pai não somente a amar plenamente o filho, mas também a carregar sobre si as culpas e as penas dele. Essa paternidade espiritual manifesta-se especialmente no acompanhamento espiritual do discípulo e na abertura do seu coração. O acompanhamento que o pai espiritual faz do filho, exige da parte deste a abertura total da alma através da manifestação dos pensamentos que o dominam, e aos quais afrontará através do discernimento e da discrição do pai espiritual.
Ainda que o Evangelho (cf. Mt 23, 9) proíba chamar pai a qualquer outro homem que não Deus mesmo, Paulo (cf. 1Co 4, 15) falará a respeito do ministério daquele que como um pai gera a Cristo. Já nos textos monásticos mais arcaicos, os Apoftegmas, “visitar os anciãos é a regra dos antigos pais”, para eles é mais importante abrir o coração a um pai espiritual pedindo-lhe conselho, do que permanecer na solidão, rezando. Manifestando os pensamentos ao pai espiritual, revelando-os, eles se tornam impotentes. Ao pai espiritual nós nos confiamos tanto com amor, como com confiança e obediência. Por sua vez, o pai espiritual não deve improvisar-se como tal; antes de ser pai deve ter sido filho e ter aprendido a arte do discernimento dos espíritos através da freqüência assídua às Sagradas Escrituras e ter passado pela luta espiritual. Somente depois de conhecer as próprias fraquezas e a obra do Espírito Santo em si mesmo, pode, então, tornar-se mestre e médico dos outros.

Monaquismo no Egito.

  1. Santo Antão

Uma das grandes figuras do monaquismo copta contemporâneo, padre Matta el-Meskin, falecido há apenas dois anos, afirma em uma sua obra sobre Santo Antão: Se o papel de Pacômio, em relação à regra monástica, pode ser comparado àquele de Moisés, que entregou a antiga Lei, Antão ocupa, com relação a todo o movimento monástico, o papel de Abrahão, primeiro pai do povo da antiga Aliança.

Antão o Grande (+356). Viveu entre 251-356, nascido em um vilarejo copta, de família cristã. Alguns estudiosos apresentam-no como homem de cultura simples e limitada, mas o fato de conhecer o copta e depois o conteúdo do seu ensinamento nas sete cartas consideradas autênticas, nos faz rever esse juízo. Com a idade de 20 anos, ouvida a palavra do Evangelho, confia a irmã às virgens do vilarejo, e se dedica à vida de oração, guiado pelos conselhos de um ancião. Depois desse período, afasta-se para o deserto, morando nas tumbas abundantes. Nesse período, misturam-se nele o desejo do martírio e o desejo de uma maior solidão. Depois de ter ajudado e servido os mártires e os cristãos perseguidos, encaminha-se para o monte interior que não abandonará mais. De qualquer modo, vai a Alexandria solicitado pelo bispo Atanásio, para ser ajudá-lo na luta anti-ariana. Prevê sua morte e pede aos seus discípulos para ser sepultado em lugar escondido, para evitar a mumificação que acontecia muito freqüentemente.

Esses são os dados biográficos de Antão marcados por um progressivo caminho em direção à solidão e a Deus, ainda que encontremos também um contato do santo com os discípulos e as pessoas que o procuram. Atanásio, na Vita Antonii, coloca um longo discurso na boca de Antão, que é uma espécie de programa sobre a vida do monge: penitência, oração, luta contra os demônios seguindo a cruz de Cristo, vida dia após dia sem voltar atrás. Antão aparece como o cristão formado na escola da Sagrada Escritura e da própria experiência. A Vita Antonii fala abundantemente da luta de Antão contra os demônios, inventores de todo tipo de astúcia contra o asceta.

Antão é conhecido por nós através de uma herança literária bastante reduzida. Em primeiro lugar, a Vita Antonii escrita em forma de carta de Atanásio de Alexandria, em 357, um ano depois da morte de Antão (+356), a pedido de alguns monges do Ocidente (Gália ou Itália), que Atanásio conheceu em um de seus exílios . Esse texto teve um sucesso seja no Oriente (traduções coptas, siríacas…), seja no Ocidente com uma tradução latina; Agostinho, nas Confissões, indica o papel central que a Vita Antonii desempenhou no seu processo de conversão. De Antão temos ainda outros textos:
1. Apoftegmas, (conservados em grego, siríaco e árabe). A coleção alfabética grega dos apoftegmas atribui 38 apoftegmas a Antão, a coleção siríaca atribui 49 e a árabe, cerca de 50.

  1. Cartas (uma vintena, das quais sete consideradas como autênticas). Trata-se de cartas de Antão endereçadas a discípulos seus que lhe pediam ensinamentos. As sete primeiras cartas são hoje confirmadas pela crítica como cartas autênticas de Antão, enquanto o resto são cartas de discípulos, especialmente Amonas, que, todavia, transmitem uma corrente espiritual comum, também muito freqüente como estilo. As sete cartas autênticas não se conservam em grego, mas somente fragmentos em copta e por inteiro em latim, árabe e georgiano, ainda que Jerônimo, no De viris illustribus (PL 23, 602), diz haver conhecido uma versão grega das cartas.

Sem entrar em uma apresentação detalhada do ensinamento de Antão a respeito da vida monástica e da vida cristã, gostaria de sublinhar ao menos alguns pontos que considero importantes. Em primeiro lugar, através da Vita Antonii podemos conhecer o processo de conversão ao Evangelho: é a Palavra do Evangelho que toca Antão e o leva para o deserto, para a vida monástica. Os dois textos que “tocam” Antão são Mt 19, 21: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens.. depois vem e segue-me”, e Mt 6, 34: “Não vos preocupeis com o amanhã…”

Podemos dizer que Antão obedece ao mandamento que exorta a vida ascética. A vida ascética que Antão se propõe é a aplicação direta do mandamento evangélico . Em segundo lugar, como conseqüência do primeiro ponto, toda a vida de Antão – sozinho no deserto, na pequena comunidade com os discípulos, no relacionamento com os outros – é marcada pelo Evangelho; toda a sua vida, a sua ascese, as suas lutas referem-se a Cristo e ao seu Evangelho. Atanásio fará notar na bibliografia antoniana, como aquele que vence nas lutas ascéticas de Antão é sempre o próprio Cristo: “Onde estavas? Estava ao teu lado caso caísses”. Em terceiro lugar, o ensinamento ascético de Antão, tendo como base o Evangelho, ressalta os pontos que depois toda a tradição monástica manterá como pontuais: o caminho ascético é dom do Espírito Santo; a ascese como progresso; perigos e tentações: o voltar atrás, o desencorajar-se; abertura do coração ao pai espiritual. Em quarto lugar, a ligação eclesial de Antão; por duas vezes Antão vai a Alexandria para enfrentar a crise ariana, para manifestar o seu compromisso com a comunidade eclesial à qual pertence.

Comentário a algumas cartas de Antão.

Carta 1. Desenvolve quatro argumentos coligados um com o outro.

  1. Apresenta três tipos de homens: aqueles que escutam a palavra e a seguem e entram na vida monástica. Aqueles que não são diretamente chamados, mas sabem escutar e compreender as palavras da Sagrada Escritura. Aqueles que são pecadores, mas que pela palavra do Evangelho se arrependem.
  2. O Espírito conforta e fortifica aqueles que lutam.
  3. Três movimentos no coração do homem: movimento do corpo obediente à alma. Movimento do corpo que o empurra às paixões. Movimento que vem do mal e que distancia o homem da conversão.
  4. O Espírito de Deus purifica os sentidos do monge.

Carta 4 . Desenvolve o tema do serviço a Deus, serviço que conduz o monge à fraternidade e à filiação. No final, encontramos também uma referência a Ario e à sua doutrina.

Apoftegmas de Antão.

Ler alguns dos apoftegmas de Antão. Os apoftegmas atribuídos a Antão ou a respeito dele nos mostram o personagem em um modo mais amplo e rico. Descreve para nós, de algum modo, aquilo que o monge é e faz.
Séria Alfabética, apoftegmas 1 e 2. Tema da acédia . Antão está sozinho no deserto . É dito que Antão está “sentado”, para indicar não tanto uma posição física quanto um estilo de vida no deserto. Ler também os apoftegmas 13 e 14, com o tema da desconfiança com relação aos prodígios, às coisas feitas com muita facilidade ou então, muito na juventude.

  1. Apoftegmas

Com o termo Apoftegmas indica-se a série, muito abundante, dos Ditos e Palavras dos Pais do deserto – anônimos e conhecidos. São textos redigidos no início do século V, e recolhem a herança do ensinamento dos Pais, freqüentemente em forma brevíssima, até paradoxal algumas vezes. São palavras “dom” de um pai espiritual ao seu ou aos seus discípulos. Muitas vezes, são ditos que podem até cair em contradição um com o outro, porque nascem em um contexto pessoal e temporal muito concreto.

Um irmão veio visitar Abba Poemén e disse-lhe: “Abba, tenho muitos pensamentos que me colocam em perigo”. O ancião o conduziu a ar aberto e disse-lhe: “Alarga o seu peito e segura os ventos”. Aquele disse: “Não posso!” E o ancião replicou: “Se você não pode fazer isso, não pode também impedir aos pensamentos de virem; a você compete somente resistir a eles”.

Amma Sinclética disse: “Como um tesouro, quando é descoberto, desaparece, assim também a virtude, quando se torna conhecida e manifesta, desaparece; e como a cera derrete diante do fogo (Salmo 67, 3), assim a alma, por causa dos louvores, se esvazia e abandona a fadiga.

Dois anciãos viviam juntos por muitos anos e nunca brigaram. Então, um disse ao outro: “Briguemos também nós, como fazem os outros homens!”. E o outro respondeu ao irmão: “Não sei como se começa uma briga”. O primeiro disse: “Pois bem, eu coloco no meio uma jarra e digo: ‘é minha”, e você diz: ‘não, é minha’. É assim que se começa uma briga”. Colocaram, pois, no meio uma jarra e um disse ao outro: “é minha”, e o outro disse: “é minha”. E o primeiro disse: “Se é sua, pegue-a e vai embora”. E se separaram sem terem encontrado um motivo para brigar um com o outro.

Falando dos Apoftegmas, somos obrigados a indicar diversos aspectos importantes para entender bem esses textos, essa literatura, esse gênero literário.

  1. Em primeiro lugar, como indicamos no início, é uma literatura fragmentária, que não tem uma ligação precisa entre os diversos textos e os ditos.
    2. Em segundo lugar, também o ensinamento que encontramos nesses textos não é homogêneo; criaram-se coleções que mais ou menos tendem a agrupar ou por autores ou por temas, mas no início não era assim. Portanto, é um gênero literário diferente de outros que encontramos no campo da literatura monástica: regras, cartas, tratados…
  2. Trata-se de uma coleção de textos, cujos autores jamais pensaram que se tornariam parte de uma coleção. Há quase uma centena de nomes de monges que jamais teriam pensado em tornar-se “autores” de tais textos. Também a autoridade dos textos, a atribuição, pode muitas vezes mudar de um manuscrito para outro, como no caso dos apoftegmas atribuídos a Evágrio Pontico, com toda a controvérsia entorno a esse autor e a esse nome. De qualquer forma, a importância e o valor de Evágrio faz que o ensinamento não seja excluso, mas modificado o nome ou colocado como anônimo.
  3. Os Apoftegmas nos mostram que eles são o fruto da experiência ascético-monástica de homens e mulheres que foram para o deserto, sozinhos, quase sem mestres, tendo a Sagrada Escritura como única mestra, e a sua interpretação como guia na vida ascética. Esses monges e monjas elaboraram normas, guias, da vida ascética a partir da experiência deles, com sucessos e também com insucessos. Dessas primeiras experiências, os Apoftegmas são a narração primeira e sem muitas elaborações.
  4. Os Apoftegmas nos apresentam nos Pais do deserto uma imagem equilibrada e humana, seguramente muito mais do que nos contos da História Lausíaca, de Paládio ou da História dos Monges no Egito, de Rufino . Os Apoftegmas nos oferecem uma espiritualidade forte, que dá importância ao esforço humano; todo o tema da luta espiritual, ligada sem dúvida ao tema da luta de Cristo contra o mal.

Como são os Apoftegmas? Como se apresentam a nós? P.J.C. Guy os classifica em cinco tipos que podem nos ajudar.

  1. O primeiro tipo é o da pergunta-resposta: pergunta do discípulo e resposta do mestre. A esse tipo se acrescenta algumas vezes o complemento, quer dizer, uma segunda pergunta do discípulo como esclarecimento e uma segunda resposta do mestre. Em alguns casos, se conserva somente a resposta do mestre; ou então, em uma coleção a resposta do mestre, e em uma outra a pergunta-resposta inteira.
  2. Um outro tipo pode ser aquele da resposta coletiva de diversos mestres ou pais espirituais: “Os nossos pais disseram…”, ou então “Abba Isaías e os outros pais nos disseram…”

III. Uma terceira tipologia é aquela de um resumo biográfico que tem por si mesmo valor de uma palavra a partir daquilo que essa vida nos pode ensinar.
IV. Um quarto tipo são as biografias em sentido mais amplo, mais longo também, que foram recolhidas nos Apoftegmas.

  1. Enfim, um último tipo é aquele dos fragmentos de ensinamentos de um pai famoso – Evágrio, Isaías, Cassiano… – que vai além dos tipos precedentes que foram incluídos nas coleções dos Apoftegmas.

A coleção dos Apoftegmas como a conhecemos hoje, são fruto de uma longa evolução. Quais seriam as etapas dessa evolução?

  1. Um primeiro estágio, aquele da passagem do individual ao coletivo. Cada Apoftegma é uma palavra particular, dada a um irmão particular que a princípio não tem um escopo geral, universal. Alguns padres se maravilham, por exemplo, que um pai dê uma resposta a respeito do jejum a um irmão, e ao outro uma resposta diferente: a palavra dada é adequada àquele a quem é endereçada. De qualquer forma, trata-se de textos e, portanto, de ensinamentos facilmente “reutilizáveis”, isto é, uma doutrina que pode valer também para outros.
    II. Um segundo estágio seria aquele da passagem do oral para o escrito. Quando os Apoftegmas tornam-se literatura escrita? Ainda que seja difícil precisar, ocorreu com certeza contemporaneamente ao sucesso de outros textos monásticos como a Vita Antonii e os textos de e sobre Pacômio. Quando Cassiano, entre 420 e 430, escreve as suas Instituições e Conferências cita os ditos dos pais, mas não deixa transparecer se os recebe via oral ou escrita.
    III. Um terceiro estágio é aquele da organização das coleções de Apoftegmas. Os estudiosos propõem a divisão dos Apoftegmas em duas grandes coleções: Alfabética e Sistemática. No prólogo da primeira coleção, encontramos indicações que dizem não “serem os primeiros” a colecionar esses textos, e a colocá-los alfabeticamente a partir dos nomes dos autores ou de atribuições; além disso, para os textos anônimos existe uma continuação em capítulos. Com relação à coleção sistemática, a ordem é temática para ajudar o leitor a uma leitura fácil e ordenada dos diversos assuntos. P. Guy indica que a coleção Sistemática seria mais tardia do que a Alfabética.
  2. Um quarto estágio seria o da difusão das duas coleções e das suas variantes. A esse ponto, precisamos notar que as duas coleções nos permitem uma aproximação diferente aos Apoftegmas: a Alfabética nos permite um conhecimento, uma amizade espiritual com os diversos autores, enquanto a Sistemática nos permite compartilhar a experiência deles e o seu ensinamento espiritual.

A situação geográfica dos Apoftegmas, quer dizer, aquela que eles refletem, é a do Deserto de Scete, do qual nos Apoftegmas se fala bem 84 vezes, enquanto que sobre as Celas se fala 21 e de Nítria apenas 4 . Gostaria de fazer alguns breves acenos a Nítria e Scete . Nítria encontra-se a mais ou menos 60 Km de Alexandria, e foi fundada por Ammona por volta de 315; tal centro foi visitado por Antão. Existiam celas individuais e grupos semi anacoretas, governados todos por um “abba de Nítria”, ligado colegialmente a sete anciãos presbíteros como ele. Para assegurar a vida verdadeiramente solitária aos monges mais anciãos, a cerca de 20 Km a sul foi fundado o deserto das Celas, ligado ao nome de Macário de Alexandria. Nítria sofreu muito com as lutas doutrinais do século V, devido à sua relativa vizinhança com Alexandria.

Scete, geograficamente a cerca de 50 Kg a sul das Celas, teve até os nossos dias uma presença monástica florescente. Havia quase desde o início – Macário o Egípcio seria o fundador – quatro agrupamentos semi eremíticos que estão na origem dos quatro mosteiros mais importantes: o mosteiro dos Santos Máximo e Domezio (hoje Deir Baramus), edificado por Macário sobre os túmulos dos dois santos monges de origem romana ; o mosteiro de abba Bishoi (ainda hoje existe); o mosteiro de abba João Colobos, e por fim o mosteiro construído ao redor da última habitação de Macário (hoje Deir Abbu Makar). No início, no centro monástico existia somente uma igreja para a liturgia dominical e um refeitório para a refeição comum também no domingo. Durante a semana, os monges habitavam sozinhos nas celas ou com um discípulo. Os monges trabalhavam manualmente entrelaçando junco e fazendo cestas e esteiras. Cada mosteiro estava sob a autoridade de um ancião, freqüentemente presbítero e, juntos, estavam sob a autoridade do Abade de Scete.

No que diz respeito aos personagens, encontramos três gerações de monges ligados, sobretudo, a Scete, e uma quarta de herdeiros seus.
1. O fundador de Scete é a figura com o nome de Macário. Dois monges levam esse nome, o alexandrino e o egípcio. Cassiano, na Conferência XV, 3, 1, nos fala que o segundo, o egípcio foi o fundador de Scete. Nascido por volta do ano 300 e de origem simples – parece que se ocupava de camelos -, por volta do ano 330, retirou-se em uma cela no delta do Nilo; mais tarde, chegou na região de Scete. Por volta de 330 e 340, visitou uma ou duas vezes a Antão; aparentemente, por um conselho seu aceita tornar-se sacerdote e pai espiritual de muitos ascetas. Em 373-375, envolvido com as crises arianas, é exilado na região do delta do Nilo. Volta depois a Scete onde morre em 390. Os seus biógrafos indicam que teve o dom da cardiognose, isto é, o discernimento do coração dos discípulos. A ampla presença de Macário nos Apoftegmas, nos apresenta um homem doce e austero ao mesmo tempo, pleno de temor de Deus, pleno de misericórdia e de amor paterno com relação aos seus filhos.

  1. A primeira geração. Alguns nomes são ligados aos discípulos imediatos de Macário. Sisoé – homônimo de outros dois monges. Ammona, que viveu quatorze anos em Scete. Isaías, também com muitos homônimos. Or, Paisios…
    3. A segunda geração. Os Apoftegmas indicam diversos nomes que seriam a segunda geração em Scete, por volta do final do século IV: Arsênio, Carione, Zaccaria, Isidoro, Pafnunzio…
  2. A terceira geração. Nomes como Aquile, João Colobos, Moisés, Serapião, Teodoro de Ferme. O caso de João Colobos é interessante porque bem 47 apoftegmas são atribuídos a ele; discípulo de um ancião que o obrigava cada dia a regar uma madeira seca que, depois de três anos, criou raízes novamente e floresceu.
    5. Os herdeiros. A invasão bárbara de 407 trouxe a Scete um golpe duríssimo. Os padres fogem e permanecem no lugar de fuga, sem retornar a Scete. Alguns monges ligados a esse período, ou seja, ao longo da primeira metade do século V: Arsênio o Grande, instrutor dos filhos do imperador Teodósio, os apoftegmas o apresentam como um monge sério. Nascido por volta de 354, deixa a corte imperial por volta do ano 395 e se retira a Scete até 434; fugindo por causa das invasões, morre em 449. Poemén é um caso um pouco excepcional porque chegaram até nós mais de duzentos apoftegmas com o seu nome. Vive em Scete com os seus seis irmãos.

Datação e lugar da coleção dos Apoftegmas. É um tema difícil de esclarecer. Podemos indicar, de qualquer modo, que em 555 Pelágio, depois Papa Pelágio I, faz uma tradução latina dos apoftegmas a partir de uma versão grega . P. Guy propõe datar as primeiras coleções de Apoftegmas em torno a 480-490.

Quais são os assuntos, os temas espirituais e ascéticos com os quais foram recolhidos os apoftegmas na Coleção Sistemática? Dou simplesmente um elenco dos assuntos para ressaltar o escopo do redator: progresso na perfeição; busca do recolhimento; sobre a compunção; o controle de si mesmo; combate contra a fornicação; pobreza; sobre a coragem; sobre não fazer nada como ostentação; sobre a vigilância e sobre não julgar ninguém; sobre o discernimento; sobre a vigília; sobre a oração contínua; sobre a hospitalidade e a misericórdia; sobre a obediência; a humildade; sobre a luta contra o mal; sobre a caridade; sobre os anciãos clarividentes; sobre os anciãos que progridem ainda; sobre as virtudes dos anciãos; sobre a ascese dos pais.

Paternidade espiritual nos Apoftegmas.

Quais são os “temas” sobre os quais o pai espiritual é interrogado? Elenco alguns temas, os que mais sobressaem. Apresento uma amostra porque é aí que podemos ver “em ato”, “na prática” aquilo que é, que vive, e como age um pai espiritual.

  1. Sobre o pai e a paternidade espiritual. Se interrogas um pai a propósito dos teus pensamentos, reza antes a Deus e digas : “Senhor, coloca aquilo que queres na boca do ancião, afim que ele me diga . Porque eu receberei como da tua boca, Senhor, aquilo que me virá dele. Fortifica-o, Senhor, na tua verdade, para que eu aprenda através do teu mediador a tua vontade”. E guarda aquilo que te diz o pai, com cuidado e temor.

Um irmão interrogou um ancião: “É bom ir até os anciãos, ou é melhor permanecer na cela?” O ancião lhe respondeu: “A regra dos pais antigos era visitar os anciãos, os quais justamente ordenavam de permanecer na cela”.
Um ancião disse: “Um monge que está sob a guia de um pai espiritual e que não pratica a obediência e a humildade, ainda que sozinho, jejua ou faz qualquer outra coisa que lhe parece boa, não obterá uma virtude sequer e desconhecerá o que seja um monge”.

  1. Temas dirigidos ao pai espiritual. Os temas que encontramos nos Apoftegmas são tantos, e fazem parte do percurso da vida cristã. Luta contra as paixões, discernimento, silêncio e palavra, perdão das ofensas. Vejamos alguns exemplos.

Pobreza e renúncia.

Abba Pambo dizia que o monge deve vestir um manto tal que, ainda que se o deixasse por três dias fora da cela, ninguém o levaria embora.
Amma Sinclética disse: “O nosso inimigo é vencido mais facilmente por quem não possui nada, porque ele não tem de que feri-lo. Muitos monges, lembrados das dificuldades e das tentações que separam de Deus, tomaram o hábito de imolar-se através o abandono das riquezas e de todos os outros bens”.

Oração.

Diziam de abba Arsênio que na noite do sábado, quando começava o domingo, deixava o sol atrás de si e estendia as mãos ao céu em oração até que de novo o sol brilhava sobre a sua face; e vivia desse modo.
Um irmão interrogou um ancião: “Por que às vezes, quando recito os salmos, tenho pressa de chegar ao fim?” Respondeu o ancião: “De que coisa se reconhecerá que alguém ama a Deus, se não do fato de que, quando luta com o demônio, se faz violência para resistir-lhe, impulsionado pelo amor e pelo temor de Deus?”.

  1. Manel Nin OSB

Pontifício Instituto Oriental

Curso oferecido pelas Beneditinas de Tutzing, Roma 2011.

Tradução de D. Adriano Bellini OSB.

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